quarta-feira, 28 de abril de 2010

Sophrendo na Poita




Apreendendo e sofrendo na poita*.

O passar do tempo é infatigável, pensava Sophos  preso as suas amarras girando ao sabor das rondadas do sudoeste, o vento das frentes frias  que de tempos em tempos castiga a cidade que abriga a poita, com diferentes graus de intensidade.
Desta vez foi pura furia, pois alem do  tamanho do pé d’água inundante veio como convidada inoportuna, uma ressaca de grandes e previsíveis proporções.
O quase caos vivenciei de perto. Surfei  ondas abissais quase colado as bordas de concreto da enseada. Se as amarras da poita não tivessem resististido e eu fosse à garra, se um cabo soltasse ficaria ao sabor da natureza sem comando, e caso desse costado alhures, poderia não estar aqui para contar essa e muitas  das estórias entrecortadas que já ouvi do acontecido, nos relatos dos barqueiros que passam próximos, indo e voltando das pescarias e suas aventuras pessoais.
Esse é o momento que tenho para agradecer a um dos meus atuais donos, o mais velho, que realmente se preocupa comigo. Soube, de ouvir dizer, que ele estava aflito no meio de uma aula, preocupado antes de acontecer (dos males da informação), mas sabia que pouco havia a fazer a não ser confiar na previdência de já ter feito um bom serviço.
Durante os dias até tirava onda, pois todos ficavam a nos olhar na torcida para que agüentássemos o tranco. Os mais preocupados, os donos de barcos apareceram durante o período e foram visto roendo unhas e acendendo velas. Foram duas noites sem descanso, tementes todos, sem saber se estávamos sendo vigiado no caso de qualquer encrenca acontecer. A torcida era para o celular não tocar, para não trazer noticia ruim.
Nem precisava, foram tantas que se sucederam nos meios mais que nunca comunicativos, tudo por conta dos desvios, do despreparo, da avalanche de  incompetência que mataram incautos, vitimas da imprevidência, do deixar rolar para ver como é que fica...E no final, sempre fica mal!
Malfeito, maldito feito.
Graça as ocupações desregradas dos desassistidos cuja má sorte se  evidenciou a custa de suas vidas, em mais um retrato triste do que permitimos fazer ao meio ambiente que habitamos. É duro, mas é a lei de talião, do  olho por olho, dente por dente, do aqui se faz aqui se paga. É a Natureza x Humanidade! Uns pagam com a vida desperdiçada, outros com a culpa acumulada que restará na historia por conta das incompetências havidas...
Tudo se liga, é uma grande teia que se interconecta. As escolhas de rumo, que fazem os homens e seus destinos . O como chegam é que revela a sabedoria de cada um dos pontos dessa rede.
As águas que rolam, não voltam, são sempre outras, mais ou menos previsíveis, elas movem moinhos, arrastam lixo, derrubam casas, destroem sonhos.
É inexorável, todos os rios correm para o mar.  Que  tudo recolhe.
Nesse mar navegamos, desviando dos obstáculos , evitando as turbulências possíveis . A vida é o mar e o viver impreciso. Por garantia de um sono tranqüilo, prepare antes uma boa poita. E fique atento as variações do tempo. Para se ter esperança é necessário antes ter confiança no caminho feito!


Sophos, sempre em busca dos Bons Bordos...




*poita; substantivo feminino 
1 Rubrica: termo de marinha.objeto pesado que faz as vezes de âncora em embarcações miúdas; pandulho
2 peso de ferro, chumbo ou pedra, utilizado no espinel; chumbado
3 pessoa indolente








Um comentário:

  1. Oi Mario! Bem-vindo a bordo do Tribuneiros e Seu Martin:-)
    um beijo, Bruna

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