Essa é uma historia,
com h, faz parte do curriculum do Sophos ainda no seu primeiro ano de vida
conosco. Depois dessa muita água rolou, ainda que parado na poita. Alem da
fabricação de um novo leme, um ano de ressaca passou aliado a um certo descaso,
até que a vergonha de ver Sophos, juntando craca, largado na poita falou mais forte, daí; novas
velas, novo estaiamento, novas anteparas , janelas em execução e uma lista
interminável de afazeres que vão sendo eliminados de acordo com a verba e disposição encontrados.
Tudo começou com a proposta de corrermos a regata da FAB no Iate
Clube Jardim Guanabara em outubro de 2008, válida pela copa interclubes, tendo entre
outra, como classe convidada os oceanos/RGS.
Sophos partiu para a empreitada as 11:15 logo após
tradicional mergulho de limpeza do casco para sua 1ª ida ao fundo da baía. A
bordo meu filho Pedro e completando a tripula como reforço experiente, Adrian e
Marissel.
Um vento S/SE de
cerca de 10 nós nos empurrava na direção certa com maré enchendo, na altura do
Sts. Dumont, subimos o balão que encheu bonito para logo em seguida
"desmanchar" dentro d'água. Havia soltado o “gato” da adriça...Recolhemos
rápido a vela e ficamos nos olhando com cara de decepção...assim não daria pra
correr a regata...a solução era pegar a adriça, lá na encapeladura do estai de proa a uns sete metros do convés.
Sobrou pra mim pensei, quem manda querer correr
todas...Arriamos a genoa, pedi um cabo grosso
dei dois lais-de-guia, um para adriça e outro para servir de alça, me
encaixei, Marissel foi pro leme mantendo um rumo meio de través, Pedro no
chicote do cabo e Adrian na manicaca
coordenando meu içamento. E lá fui eu com meus 85 kg, torcendo pra que tudo
agüentasse. Subi me agarrando no mastro
como um desesperado por causa das
marolas das lanchas que saiam da marina...
Quando engatei o gato da adriça no meu nó e pedi pra
arriarem com cuidado, foi que me dei conta do belo ponto de vista, pena que foi
rápido, desci pra segurança com as
pernas rasgadas no joelho, o tornozelo frontal que enlaçava o mastro roxo e
doído, e as ancas que recebiam o peso no cabo até agora, dois dias depois,
ainda inspiram cuidados.
Mas valeu, subimos de
novo o balão (agora com lais-de-guia) aproamos rumo a largada no Jardim
Guanabara e eu estava feliz em ter mais
uma estória para contar.
Tolo, esse era só o preâmbulo.
Chegando na área vento de 13/14 nós, muitos oceanos, poucos monotipos
, representando o CRG Moleque, Sudoeste e Lella e no meio
deles a corajosa Valéria que estreava no Laser Radial, que toda
atrapalhada ainda soube nos pedir um cabinho, pra amarrar a extensão do
leme.
O vento de quadrante Sul aumentava, como não tínhamos genoa
2 achamos por bem velejar com a buja no contravento otimizando o desempenho do
grande, no vento que mal conseguíamos escorar (350kg).Partimos no grupo 1 dos
RGS, deixando os companheiros V23 para
uma outra...éramos o menor da turma mas chegamos no parcel das feiticeiras na
frente de J24, ficamos animados. Mais ou menos,
pois já estávamos sendo alcançados pelo "turbinado " V23
Mixuruca que havia saído 5 minutos depois..
Logo o balão começou a enfraquecer e ficar difícil de
sustentar, nessa hora Wayan se
aproximava ainda nas últimas rajadas de S. Distraído com a regata nos
desligamos do negrume que se formava a
NW. Ao
nos aproximarmos da bóia já de
genoa numa orça folgada e vento de proa aumentando foi que
nos demos conta do excesso de vela, mas cambamos e descemos de popa céleres
rumo a chegada.
Cruzamos e assustados demoramos a tomar as providências
necessárias; colocar salva vidas, ir de cara pro vento, arriar velas, rizar o
grande.
Com Adrian no leme, Pedro foi pra proa recolher genoa, eu na
adriça, com o vento cada vez mais forte estava difícil de baixa-la, soltei o
cabo e fui ajudar, o barco descia as ondas na maior pressão quando ouvi um
grito, em seguida o barco enterrou a
proa e deitou de lado dando um mergulho de bico e logo retornando a horizontal,
um verdadeiro cavalo-de-pau debaixo de um caju assustador, velas ao vento
estraçalhando e eu sozinho, mais ninguém a bordo.
Olhei e vi Pedro n'agua agarrado a duas escotas e ao barco, catapultados,
Adrian a uns 5m, Marissel a 10m ambos se
afastando cada vez mais a barlavento, vi que estavam bem, nadando e sempre
fixando o olhar neles tratei de recolher a genoa para tentar de grande retornar e resgatá-los. Quando
consegui e fui pro leme foi que percebi o tamanho da encrenca. Aquele grito era
"quebrou o leme", ou algo assim. (o eixo inox maciço de 5/8")
Não tinha mais margem para erros, nessa hora um lanchão
passou a mil, eu com as grande rasgada, pulando, acenando por socorro apitando
e ...nada, passou direto. Foi quando baixou um santo navegador, estranhamente
calmo, com o céu em volta desabando, relâmpagos e rajadas de mais de 35 nós, procurei a bóia retinida jogada no meio do
caos formado e a lancei ao mar, tratei então de desencaralhar a ancora e fui para proa com a 1ª compra q fiz quando
compramos o barco, ia ser estréia em
noite de gala, o ferro Bruce de 5Kg com
três metros de corrente e os 40m de cabo
mostraram ao que vieram seguraram bonito
o tranco. Nó no cunho com rabicho preso ao mastro, por via das
duvidas... O barco agora corcoveava afilado nas ondas de vento. Escurecia. Longe a barlavento, mas alinhados,
vi que os dois pontinhos se aproximavam, arriei só então o que restava do
grande.
Depois foi o embarque dos resgatados, com um cabo improvisei
uma escada na popa por onde um a um, gelados, mas salvos subiram de volta de
onde nunca deveriam ter saído..
Foi um longo e emocionado abraço.
Depois foi celular em ação avisando e dando as coordenadas
para resgate, desfazendo mal entendidos, "acalmando" a Lucia que a
partir de então ficou aflita. Mas ainda faltava voltar, e isso foi outra
estória com direito a resgate do resgate que pifou no meio da busca e o apoio
solidário de dois pescadores de São Gonçalo , que numa traineirinha a remo nos
auxiliaram a tirar a ancora agarrada no fundo e nos levaram até o Caramuru,
o apoio/resgate enguiçado. Chegamos
tarde pro churrasco amarrados ao costado. Mas com certeza outros haverão, já que
vamos ficar por lá um tempo para poder voltar velejando, como fomos.
Alem da estória ficaram as lições!! Básicas, de como estar
sempre de salva vidas, de arriar velas de frente pro vento, de não se opor as
tendências do leme brigando com a física...
No mais, foram-se leme e o grande, ficaram os dedos e o
aprendizado.
Que não se repita.
Obrigado Papai do Céu.